Tudo, menos indiferente!

Muito gente pode pensar que todos nós ficamos como os médicos ao ver mortes, se acostumam. Mas saibam que nem eles e nem a gente se acostuma em ver um corpo estendido no chão ou em prender gente. Cada vitima ou não, sem qualquer resquício de vida nos deixa com uma sensação de impotência, de fracasso, não como policiais, mas somo sociedade, como seres humanos. Presenciei, em pouco tempo, alguns casos de assassinato e outras tantas prisões de criminosos, perante as leis. Cada um desses casos tem algo em comum, um sentimento triste, mesmo com o orgulho de dever cumprido. Nunca matei ninguém, longe disso, graças a Deus nunca precisei e rezo todos os dias pra que nunca precise, mas vi muitos colegas sofrerem, mesmo sabendo que cumpriram com seu dever. Não é fácil bancar o "Juíz", acredito que para aqueles juízes de fato também não é nada fácil condenar, mas condenar a morte é um peso que nem temos ideia de como carregar. Mas o que quero deixar bem claro, é que somos forjados na "aço" e no "fogo", ficamos mais fortes sim, mas não indiferentes. Lembro-me de um caso de abordagem a um ex-presidiário, com várias passagens, inclusive pairava sobre ele assassinato de um rival, tinha sido baleado há poucos dias e estava com um bolsa de colostomia presa ao corpo, achamos com ele um revolver, que segundo ele era para sua segurança, mas sabemos quando o cara está nessa vida, está para matar ou morrer, e praticar a atividade necessária para se garantir na vida. Ele morava em um barraco, numa invasão sem qualquer infraestrutura, o chão era terra batida, tinha um cama velha sem roupa de cama, uma geladeira enferrujada, dentro dela só água em garrafas pet e um resto de tripa no congelador, mas tinha também um TV grande e moderna desligada, provavelmente roubada. A gente perguntava se era essa vida que ele queria pra ele e ele respondia: depois que tu entra nela não tem mais como sair. A gente sabe que tem, mas sabemos também o que ele teria de enfrentar pra sair, talvez não quisesse pagar o preço, não é mesmo pra qualquer um, é pra qualquer um entrar e cada um cava sua própria cova. Mas não tem como chegar em casa e dormir sem pensar na vida daquele infeliz. Tem tanta coisa nessa vida que me tira o sono e pouca coisa eu posso resolver. Se for falar de cada uma das minhas experiências, teria de escrever um livro. Mas saibam que cada uma delas me transforma em um ser melhor ou mais problemático...rs porque sugo as dores do mundo e ao mesmo tempo não deixo o mundo me sugar.  Mas se corpo estendido e bandido preso resolvesse tudo, saberíamos que o fim de tudo isso está próximo de se resolver, mas não está.
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